sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Popó... o artilheiro baiano que driblou o racismo

Popó pela Seleção Bahiana em 1934.


 Se na década de 10 o futebol baiano era um reduto de racismo, proclamado pelos times da elite, dentre os quais o próprio Vitória, essa situação começaria a cambiar na década seguinte. Quando a Liga Bahiana de Desportos Terrestres passou a permitir a entrada de jogadores negros na competição, o próprio Leão da Barra se opôs a ideia, e assim acabou ficando recluso do futebol no restante da década. Em revés disso, o Ypiranga fundado em detrimento do aniversário da Independência do Brasil, por jovens que estavam ás margens da sociedade, nasceu com um espírito de revolucionar o futebol local.

 É nesse cenário, num misto de elitismo e popularidade que se encontrava o futebol baiano no início do século 20. O Vitória que nascera como clube de cricket, era discriminado por rapazes ingleses, e tal discriminação segue já no futebol. Por via disso, um rapaz negro, chamado Apolinário Santana ganhara destaque na história do desporto baiano e nacional. Ele era conhecido nos gramados como Popó, fora dele seu nome de batismo já nomeou rua em Salvador e também a taça do Baianão de 2002, ano em que o rubro-negro levantou o caneco. 
Um esboço do Craque do Povo com a camisa do Ypiranga.

 Popó se destacou no em clubes como o Botafogo-BA, São Benta-BA, Bahiano de Tênis... mas foi com a camisa do Ypiranga seus maiores feitos. Não é atoa que é até hoje o maior ídolo do clube, e também na época era o craque preferido de Jorge Amado. Tal como o escritor, ele era adorado também pela beata Irmã Dulce. Os feitos de Popó não se resumiram aos títulos, foi pioneiro ao se tornar o primeiro jogador negro de destaque nacional, e foi o Ypiranga também um clube pioneiro no quesito do ingresso dos negros no futebol, fato que ocorreria com o Vasco da Gama em seguida. Em campo, uma de suas maiores façanhas foi quando em um amistoso contra o Fluminense no Campo da Graça, marcou os cinco gols da vitória aurinegra em 5 a 4. Os jornais cariocas noticiavam no dia seguinte: "Popó 5 x 4 Fluminense". E dessa forma, qualquer outro jogador que se destacasse em um confronto diante do tricolor era apelidado de Popó. 

 Com a camisa do Vitória, Popó jogou somente duas partidas. A primeira ocasião foi 05 de abril de 1923, quando o São Bento o emprestou para o Leão jogar um amistoso contra o Fluminense. É dessa forma, que Apolinário Santana atravessou barreiras no esporte bretão. O Vitória que anos antes negava os futebolistas negros em sua liga, recebia agora um destes de braços abertos. E isso contribuiu para que portas fossem abertas para outros futebolistas negros, tanto no Vitória como no futebol baiano. Tais quais como Bahianinho, Siri, Juvenal e por aí seguindo. No amistoso disputado em uma quinta-feira na Graça, Popó marcou de pênalti pro Vitória e Coelho fez pro Fluminense, tendo o jogo terminado em 1 a 1. Mais de dez anos depois, em 20 de março de 1934, outro amistoso reuniu Popó e o Vitória. Novamente na Graça, pra um público de 335 espectadores, Raul Coringa e Popó - de novo de pênalti - marcaram na vitória em 2 a 1 sobre a Seleção Paulista, que naquele ano ainda viria a ser vice-campeã nacional para a Seleção Bahiana. Pelo triunfo diante do time da Pauliceia, o Vitória ainda foi presenteado com uma taça.

 A popularidade do atleta ia as alturas. Recebeu alcunhas como "Terrível" e "O Craque do Povo". Mas nem tudo foram flores. Popó encerrou a carreira em 1937, tendo sido seu último clube o Madureira-RJ, e terminou a carreira de jogador já pobre, pedindo esmolas no entorno da Fonte Nova. O fato se assemelha ao destino de outro jogador negro do futebol baiano. Perivaldo, ex-atleta do Bahia, que desde 2014 trabalha no Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj), viveu nas ruas de Lisboa como sem-teto até 2013, tendo de vender roupas usadas para se sustentar. Popó que depois dos tempos áureos nos gramados tornou a viver a margem da sociedade, morreu nesta mesma data, 17 de fevereiro, no ano de 1955.

Poemas:

Jogadores?! Nem se conta!
Mas foi o rei, isto é sabido,
Apolinário Santa
Popó seu apelido
Foi Botafogo e Ypiranga
Não brigava ou tinha zanga
Era um Deus enaltecido 
(Por Edson Bulos)

Chuta, chuta, Popó chuta
Chuta por favor
Mela, mela, mela, mela
Mela e lá vai gol
(Cantiga junina soteropolitana da primeira metade do século 20. O termo 'mela' significa drible.)

1987.
Estava em Salvador.
Cascavilhando a mim mesmo.
Cidade alta, velha pensão. 
Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.
Paisagem diferente da mansão á beira mar onde morreu.
O homem que era nada. 
O homem que tornou-se cravo e canela. 
Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.
E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.
A vida é o Pelourinho da alma.
Dona Flor?
O remédio.
Durante minha estada em Salvador. 
Futebol era assunto de conversa.
Popó!
Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios
me contou a seguinte história:
"Popó!"
Salvador de todos os santos e negros era branca.
Pelo menos nos times de futebol. 
Até chegar o Popó.
Popó de habilidade incomparável.

Jorge Amado gostava da bola.
De política. 
Mas como futebol podia ser branco?
O Ypiranga se revolta.
"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola"
Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.
Jorge Amado se veste de amarelo.
Naquela mesma casa pobre.
Olhos postos no mar.
Popó marcando gols.
Jorge Amado não resiste.
Campo da Graça.
O jovem escritor grita gol de Popó.
Ao seu lado.
Uma menina e seu pai.
Pulam em delírio.
Jorge Amado se abraça aos dois.
O comunista e a santa.
Não resisti e perguntei:
"Santa?"
O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.
"Pois é.... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"

Escureceu.
Já não havia homem velho.
Já não havia cigarro.
Apenas o mar da infinita Salvador. 
Voltei caminhando para a pousada. 
O farol me indicando o descaminho.
Eu e meus pensamentos.
O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.
Terra de comunistas.
E santos.
Todos os santos...

(O Comunista e a Santa, de Roberto Vieira)



Texto: Milton Filho

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