sábado, 15 de outubro de 2016

Paul Robeson... de esportista a ativista



 É evidente que os movimentos de cunho anti-racista nos Estados Unidos do século XX foram bastante influenciados pelo socialismo. Os conflitos raciais que se acentuavam no começo da era novecentista se estenderam por longas décadas, tendo seu ápice com as manifestações de Luther King e os Panteras Negras. Muito antes disso, revoltas como a Rebelião de Omaha foram marcos da história estadunidense, e numa época onde a população negra era segregada, tendo de se ater aos padrões da sociedade americana, um afro-americano de Princeton foi em contrapartida de todo o nacionalismo, destacando-se pela luta de direitos civis.

 Paul Robeson nasceu em Princeton em abril de 1898, sendo o caçula de cinco irmãos. Filho de um ex-escravo fugitivo e de uma mãe que vinha de uma família abolicionista, aos 17 anos ele ganha uma bolsa de estudos na Universidade de Rutgers, na qual praticou esportes como beisebol, basquete e atletismo. Dali sofrera com o racismo dos colegas de equipe, embora ele tenha atuado por duas equipes de futebol americano, a Akron Pros e a Milwaukee Badgers. No entanto, seu nome só foi introduzido no salão de futebol da faculdade cerca de vinte anos após a sua morte.
Como jogador de futebol americano na época de faculdade.

 Como estudante da Faculdade de Direito de Columbia, Robeson conheceu Eslanda Cordoza, com que se casou. Eslanda também negra, foi pioneira ao ser a primeira afro-americana a dirigir um laboratório de patologia. O marido por sua vez, já trabalhando como ator, viria a ser o primeiro negro a interpretar o papel de Otelo, na peça de Shakespeare. Acontece que enquanto trabalhava com a advocacia, o ex-esportista foi desacatado por um secretário branco e passou a trabalhar com artes para difundir a cultura africana e afro-americana. Sendo assim, entre as décadas de 1920 e 1930, ele atuou em diversos filmes e chegou até a ser condecorado como melhor ator em um festival de 1944. Ao viver na Europa no fim dos anos 20, ele constatou que o racismo não era algo tão feroz no Velho Continente como era em seu país natal.

  O fato alertou Robeson para as adversidades que o racismo trazia. Foi dessa forma que ele ingressou no ativismo político, apoiando o Pan-africanismo no auge de sua carreira artística, cantando em prol de movimentos sociais e de trabalhadores em 25 línguas pelos EUA, URSS, África e Europa. Com o sentimento antifascista, ele mantinha amizade com a anarquista Emma Goldman e chegou a doar a renda de um festival para povos judeus refugiados do nazismo. Em 1937 participou de um comício antifascista na Guerra Civil Espanhola onde disse: "O artista deve optar por lutar pela liberdade ou escravidão. Eu fiz minha escolha. Eu não tinha alternativa".
Paul Robeson na União Soviética.

 Quando conviveu com soviéticos nos anos 30, Robeson foi tratado com dignidade, tendo sido adorado por moscovitas. Na capital Moscou, ele estudou russo, assim como seu único filho Paul Robeson Jr. que lá morou com a avó. Ele voltara aos Estados Unidos por volta de 1943, época em que se viu discutindo com funcionários do governo americano. Voltado contra o machartismo e as doutrinas de opressão que os cercava, Paul Robeson chegou a ser investigado pelo FBI e teve seu passaporte apreendido em 1950. Isso não o impediu de ser homenageado por soviéticos em 1952 com o Prêmio Lenin da Paz, juntamente com a brasileira Eliza Branco.
Robeson em uma festa da embaixada soviética nos EUA, em 1950, quando se comemoravam 33 anos da Revolução Russa.

 Em 1958 escreveu sua autobiografia na qual fez importantes declarações acerca do socialismo, como: "Em muitas ocasiões manifestaram publicamente a minha crença no socialismo científico, a profunda convicção de que para todos a humanidade de uma sociedade socialista representa um avanço para um estágio superior de vida - que é uma forma de sociedade que seja econômica, social, cultural e eticamente superiores a um sistema baseado na produção para o lucro privado... o desenvolvimento da sociedade humana, de tribalismo ao feudalismo, o capitalismo, o socialismo- é provocada pelas necessidades e aspirações da humanidade por uma vida melhor." e também: "A democracia não pode sobreviver em uma América racista".

 Paul Robeson veio a falecer em janeiro de 1976 na Filadélfia vítima de um derrame cerebral, onze anos após a morte de sua esposa Elanda.

"Você
Paul Robeson,
defensor do pão do homem,
honra,
luta,
esperança.
Luz do homem,
filho do sol,
o nosso sol,
sol do subúrbio americano
e das neves vermelhas
dos Andes:
você guarda a nossa luz

cante,
camarada,
cante,
irmão da terra,
cante,
bom pai de fogo,
cante para todos nós..." (Ode a Paul Robeson, por Pablo Neruda)

Paul Robeson cantando a versão em inglês da canção russa Polyushko Polye, música criada em plena Guerra Civil Russa:


Robeson cantando o hino da União Soviética em inglês :


                                                                                                                                                             Por: Milton Filho                                                                                                                                                        

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