segunda-feira, 23 de outubro de 2017

REPÚDIO A MAIS UM CASO DE RACISMO NO FUTEBOL BAIANO


No último clássico entre Bahia e Vitória, no dia 22 de outubro, nos deparamos com mais um caso de racismo no futebol baiano. Dessa vez, foi o atacante rubro-negro Santiago Tréllez que foi acusado de proferir palavras que abalaram o meio campo tricolor, Renê Santos. Nós, membros da torcida antifascista e antirracista Brigada Marighella, repudiamos o fato, e reivindicamos que os dois clubes tratem a situação por meio de pessoas devidamente qualificadas para abordar casos de racismo, envolvendo pedagogias e especialistas que possam primordialmente cuidar da vítima e evitar a perpetuação desses casos. O enfrentamento ao discurso de ódio, seja qual for, não se dá meramente por mecanismos punitivista, principalmente no atual sistema judiciário brasileiro.

Casos de racismo têm sido colocados à tona recentemente no futebol baiano, e enfrentam o persistente mito de que aqui é um "paraíso da democracia racial". Vale lembrar que em 2017 tivemos atos racistas de torcedores que afetaram o meio campo Feijão de Ogun, do Bahia. Também tivemos denúncias de que o zagueiro Lucas Fonseca, do Bahia, proferiu ofensas de cunho racistas ao também zagueiro Kanu do Vitória no primeiro BaxVi do ano, mas não foi sequer discutido pela grande imprensa esportiva. Nessa segunda situação, se pessoas capacitadas fossem convidadas a se pronunciar por meio da imprensa, ou discutir internamente nos clubes, teríamos menos chances de uma repetição agora.

O futebol, algo chave para forjar uma identidade baiana a partir do século XX, não ficou de fora das chagas de uma região que fora um polo escravista internacional durante quase quatrocentos anos. Os seus dois principais clubes, Bahia e Vitória, são originários de elites posteriormente incumbidas de implementar estratégias de branqueamento na nossa sociedade. Nos seus anos primeiros, o futebol baiano testemunhou diversas expressões desse processo, como a proibição da prática do futebol popular nas ruas.

O racismo também estava expresso no estatuto do clube Yankee, que proibia negros e trabalhadores braçais no seu quadro de associados. Ou mesmo as diversas cisões das ligas desportivas, onde o próprio Victória e o Bahiano de Tênis (origem do atual E.C. Bahia) se negaram a atuar nos mesmos certames que clubes de origem negra e popular. Porém, ambos, tornaram-se paulatinamente clubes que arrebatam multidões negras, e tiveram que tecer estratégias de ocultamento dos seus conflitos raciais, com ajuda da grande imprensa. Nada diferente do conjunto da sociedade baiana.

Vivemos em uma terra na qual determinados códigos racistas são naturalizados a fim de manter a imensa desigualdade entre negros e brancos - usar o termo "neguinho" num contexto pejorativo, é um absurdo comum da nossa gramática-, mas que não conseguem escapatória ao se fazer uma leitura apurada das estatísticas, haja vista os dados de encarceramento e os de homicídios. São códigos que se interseccionam profundamente com questões de classe e gênero no nosso dia a dia, e no futebol se refletem nos corpos e concepções que controlam as suas diretorias e processos políticos, no atual modelo de gentrificação dos estádios e arenas, e todas as formas de coisificação do torcedor.

No caso mais recente, ao que as evidências indicam, Tréllez saiu de códigos naturalizados aqui, chamando Renê de macaco. Depois, para negar a ofensa, engendrou códigos de uma sociedade com semelhanças à Colômbia, seu país de origem, onde a presença negra e a miscigenação são significativas, e enfatizou a sua herança paterna e um autorreconhecimento negro. No fim, ele não nega ter chamado Renê de macaco. Sabemos que não falta no Brasil, principalmente na Bahia, gente racista que sempre utiliza argumentos como estes a fim de não enfrentar o racismo. O racismo brasileiro é tão perverso que até a tipificação criminal nesses casos de ofensas têm se demonstrado um aliado, pois, ao não chegar às vias de uma condenação, abre-se possibilidade para negar o ocorrido. Não há nada de sutil no racismo no Brasil ou qualquer outro país da América Latina.

Vimos nos representantes dos dois clubes, e na grande imprensa, atos que demonstram incapacidade de tratar do problema. Técnicos, jogadores e dirigentes, dos dois lados, não conseguiram captar a profundidade da indignação de Renê Santos, e consequentemente não ofereceram leituras, atos e propostas consistentes para o problema. Levaríamos muitas linhas para problematizar cada resposta ao ocorrido de Carpegiani, Wallace, Mancini e Marcelo Santana. Dizer-se contrário ao racismo é apenas um passo. Temos que enfrentar também as estruturas que o perpetuam nas suas ambiguidades, a falsa meritocracia, e a expropiação da cultura negra. Discursos de ocasião não ajudam muita coisa. Muito menos criar uma ilusão que são casos excepcionais a fim de tapar as chagas do racismo presente no passado e presente dos dois clubes.

No caso do Vitória, nosso papel de apontar responsabilidades é ainda maior, pois somos torcedores desse clube. Foi lamentável a atitude do presidente em exercício Agenor Gordilho em tentar amenizar a situação. Nos fez recordar a sua herança, quando o chefe de Polícia Pedro Azevedo Gordilho, perseguia capoeiras, sambistas e praticantes de religiões afro-brasileiras entre os anos 1920 e 1930 em Salvador. Espera-se uma atitude mais objetiva deste e demais dirigentes do clube para não repetirmos ações como a do ex-presidente Paulo Carneiro, que proferiu ofensas racistas ao goleiro Felipe em 2005, e utilizou as mesmas desculpas de Tréllez.

Força, Renê!

Salvador, 23 de outubro de 2017.
 

Brigada Marighella

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Popó... o artilheiro baiano que driblou o racismo

Popó pela Seleção Bahiana em 1934.


 Se na década de 10 o futebol baiano era um reduto de racismo, proclamado pelos times da elite, dentre os quais o próprio Vitória, essa situação começaria a cambiar na década seguinte. Quando a Liga Bahiana de Desportos Terrestres passou a permitir a entrada de jogadores negros na competição, o próprio Leão da Barra se opôs a ideia, e assim acabou ficando recluso do futebol no restante da década. Em revés disso, o Ypiranga fundado em detrimento do aniversário da Independência do Brasil, por jovens que estavam ás margens da sociedade, nasceu com um espírito de revolucionar o futebol local.

 É nesse cenário, num misto de elitismo e popularidade que se encontrava o futebol baiano no início do século 20. O Vitória que nascera como clube de cricket, era discriminado por rapazes ingleses, e tal discriminação segue já no futebol. Por via disso, um rapaz negro, chamado Apolinário Santana ganhara destaque na história do desporto baiano e nacional. Ele era conhecido nos gramados como Popó, fora dele seu nome de batismo já nomeou rua em Salvador e também a taça do Baianão de 2002, ano em que o rubro-negro levantou o caneco. 
Um esboço do Craque do Povo com a camisa do Ypiranga.

 Popó se destacou no em clubes como o Botafogo-BA, São Benta-BA, Bahiano de Tênis... mas foi com a camisa do Ypiranga seus maiores feitos. Não é atoa que é até hoje o maior ídolo do clube, e também na época era o craque preferido de Jorge Amado. Tal como o escritor, ele era adorado também pela beata Irmã Dulce. Os feitos de Popó não se resumiram aos títulos, foi pioneiro ao se tornar o primeiro jogador negro de destaque nacional, e foi o Ypiranga também um clube pioneiro no quesito do ingresso dos negros no futebol, fato que ocorreria com o Vasco da Gama em seguida. Em campo, uma de suas maiores façanhas foi quando em um amistoso contra o Fluminense no Campo da Graça, marcou os cinco gols da vitória aurinegra em 5 a 4. Os jornais cariocas noticiavam no dia seguinte: "Popó 5 x 4 Fluminense". E dessa forma, qualquer outro jogador que se destacasse em um confronto diante do tricolor era apelidado de Popó. 

 Com a camisa do Vitória, Popó jogou somente duas partidas. A primeira ocasião foi 05 de abril de 1923, quando o São Bento o emprestou para o Leão jogar um amistoso contra o Fluminense. É dessa forma, que Apolinário Santana atravessou barreiras no esporte bretão. O Vitória que anos antes negava os futebolistas negros em sua liga, recebia agora um destes de braços abertos. E isso contribuiu para que portas fossem abertas para outros futebolistas negros, tanto no Vitória como no futebol baiano. Tais quais como Bahianinho, Siri, Juvenal e por aí seguindo. No amistoso disputado em uma quinta-feira na Graça, Popó marcou de pênalti pro Vitória e Coelho fez pro Fluminense, tendo o jogo terminado em 1 a 1. Mais de dez anos depois, em 20 de março de 1934, outro amistoso reuniu Popó e o Vitória. Novamente na Graça, pra um público de 335 espectadores, Raul Coringa e Popó - de novo de pênalti - marcaram na vitória em 2 a 1 sobre a Seleção Paulista, que naquele ano ainda viria a ser vice-campeã nacional para a Seleção Bahiana. Pelo triunfo diante do time da Pauliceia, o Vitória ainda foi presenteado com uma taça.

 A popularidade do atleta ia as alturas. Recebeu alcunhas como "Terrível" e "O Craque do Povo". Mas nem tudo foram flores. Popó encerrou a carreira em 1937, tendo sido seu último clube o Madureira-RJ, e terminou a carreira de jogador já pobre, pedindo esmolas no entorno da Fonte Nova. O fato se assemelha ao destino de outro jogador negro do futebol baiano. Perivaldo, ex-atleta do Bahia, que desde 2014 trabalha no Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj), viveu nas ruas de Lisboa como sem-teto até 2013, tendo de vender roupas usadas para se sustentar. Popó que depois dos tempos áureos nos gramados tornou a viver a margem da sociedade, morreu nesta mesma data, 17 de fevereiro, no ano de 1955.

Poemas:

Jogadores?! Nem se conta!
Mas foi o rei, isto é sabido,
Apolinário Santa
Popó seu apelido
Foi Botafogo e Ypiranga
Não brigava ou tinha zanga
Era um Deus enaltecido 
(Por Edson Bulos)

Chuta, chuta, Popó chuta
Chuta por favor
Mela, mela, mela, mela
Mela e lá vai gol
(Cantiga junina soteropolitana da primeira metade do século 20. O termo 'mela' significa drible.)

1987.
Estava em Salvador.
Cascavilhando a mim mesmo.
Cidade alta, velha pensão. 
Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.
Paisagem diferente da mansão á beira mar onde morreu.
O homem que era nada. 
O homem que tornou-se cravo e canela. 
Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.
E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.
A vida é o Pelourinho da alma.
Dona Flor?
O remédio.
Durante minha estada em Salvador. 
Futebol era assunto de conversa.
Popó!
Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios
me contou a seguinte história:
"Popó!"
Salvador de todos os santos e negros era branca.
Pelo menos nos times de futebol. 
Até chegar o Popó.
Popó de habilidade incomparável.

Jorge Amado gostava da bola.
De política. 
Mas como futebol podia ser branco?
O Ypiranga se revolta.
"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola"
Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.
Jorge Amado se veste de amarelo.
Naquela mesma casa pobre.
Olhos postos no mar.
Popó marcando gols.
Jorge Amado não resiste.
Campo da Graça.
O jovem escritor grita gol de Popó.
Ao seu lado.
Uma menina e seu pai.
Pulam em delírio.
Jorge Amado se abraça aos dois.
O comunista e a santa.
Não resisti e perguntei:
"Santa?"
O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.
"Pois é.... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"

Escureceu.
Já não havia homem velho.
Já não havia cigarro.
Apenas o mar da infinita Salvador. 
Voltei caminhando para a pousada. 
O farol me indicando o descaminho.
Eu e meus pensamentos.
O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.
Terra de comunistas.
E santos.
Todos os santos...

(O Comunista e a Santa, de Roberto Vieira)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Nota de apoio às ocupações em todo o Brasil



A Brigada Marighella, torcida de esquerda do Esporte Clube Vitória, manifesta apoio as ocupações de Escolas, Universidades e Institutos Federais que ocorrem por todo o Brasil em decorrência das medidas autoritárias, do governo golpista e ilegítimo de Michel (Fora) Temer, que atacam direitos dos trabalhadores e retiram recursos de áreas essenciais. O congelamento dos investimentos dos recursos federais na saúde e educação durante 20 anos atingirão de forma cruel a maior e mais sensível parcela da população brasileira.

Estudantes em todo o Brasil organizados por suas entidades de Base, diante dessas medidas trágicas, tem dado uma lição de bravura e coragem ocupando esses espaços para defender uma educação pública, gratuita, inclusiva, de qualidade e com recursos garantidos pelo Estado; enfrentando forte perseguição e intimidação que violam direitos fundamentais do Estado Democrático de Direito. Nós da brigada Marighela convocamos a tod@s a estarem juntos nessa luta. Ocupar e resistir!

Nem esqueceremos, Nem perdoaremos!

#OcupaTudo #NaoaPEC241 #NenhumDireitoAMenos #ForaMundico

Brigada Marighella

sábado, 15 de outubro de 2016

Paul Robeson... de esportista a ativista



 É evidente que os movimentos de cunho anti-racista nos Estados Unidos do século XX foram bastante influenciados pelo socialismo. Os conflitos raciais que se acentuavam no começo da era novecentista se estenderam por longas décadas, tendo seu ápice com as manifestações de Luther King e os Panteras Negras. Muito antes disso, revoltas como a Rebelião de Omaha foram marcos da história estadunidense, e numa época onde a população negra era segregada, tendo de se ater aos padrões da sociedade americana, um afro-americano de Princeton foi em contrapartida de todo o nacionalismo, destacando-se pela luta de direitos civis.

 Paul Robeson nasceu em Princeton em abril de 1898, sendo o caçula de cinco irmãos. Filho de um ex-escravo fugitivo e de uma mãe que vinha de uma família abolicionista, aos 17 anos ele ganha uma bolsa de estudos na Universidade de Rutgers, na qual praticou esportes como beisebol, basquete e atletismo. Dali sofrera com o racismo dos colegas de equipe, embora ele tenha atuado por duas equipes de futebol americano, a Akron Pros e a Milwaukee Badgers. No entanto, seu nome só foi introduzido no salão de futebol da faculdade cerca de vinte anos após a sua morte.
Como jogador de futebol americano na época de faculdade.

 Como estudante da Faculdade de Direito de Columbia, Robeson conheceu Eslanda Cordoza, com que se casou. Eslanda também negra, foi pioneira ao ser a primeira afro-americana a dirigir um laboratório de patologia. O marido por sua vez, já trabalhando como ator, viria a ser o primeiro negro a interpretar o papel de Otelo, na peça de Shakespeare. Acontece que enquanto trabalhava com a advocacia, o ex-esportista foi desacatado por um secretário branco e passou a trabalhar com artes para difundir a cultura africana e afro-americana. Sendo assim, entre as décadas de 1920 e 1930, ele atuou em diversos filmes e chegou até a ser condecorado como melhor ator em um festival de 1944. Ao viver na Europa no fim dos anos 20, ele constatou que o racismo não era algo tão feroz no Velho Continente como era em seu país natal.

  O fato alertou Robeson para as adversidades que o racismo trazia. Foi dessa forma que ele ingressou no ativismo político, apoiando o Pan-africanismo no auge de sua carreira artística, cantando em prol de movimentos sociais e de trabalhadores em 25 línguas pelos EUA, URSS, África e Europa. Com o sentimento antifascista, ele mantinha amizade com a anarquista Emma Goldman e chegou a doar a renda de um festival para povos judeus refugiados do nazismo. Em 1937 participou de um comício antifascista na Guerra Civil Espanhola onde disse: "O artista deve optar por lutar pela liberdade ou escravidão. Eu fiz minha escolha. Eu não tinha alternativa".
Paul Robeson na União Soviética.

 Quando conviveu com soviéticos nos anos 30, Robeson foi tratado com dignidade, tendo sido adorado por moscovitas. Na capital Moscou, ele estudou russo, assim como seu único filho Paul Robeson Jr. que lá morou com a avó. Ele voltara aos Estados Unidos por volta de 1943, época em que se viu discutindo com funcionários do governo americano. Voltado contra o machartismo e as doutrinas de opressão que os cercava, Paul Robeson chegou a ser investigado pelo FBI e teve seu passaporte apreendido em 1950. Isso não o impediu de ser homenageado por soviéticos em 1952 com o Prêmio Lenin da Paz, juntamente com a brasileira Eliza Branco.
Robeson em uma festa da embaixada soviética nos EUA, em 1950, quando se comemoravam 33 anos da Revolução Russa.

 Em 1958 escreveu sua autobiografia na qual fez importantes declarações acerca do socialismo, como: "Em muitas ocasiões manifestaram publicamente a minha crença no socialismo científico, a profunda convicção de que para todos a humanidade de uma sociedade socialista representa um avanço para um estágio superior de vida - que é uma forma de sociedade que seja econômica, social, cultural e eticamente superiores a um sistema baseado na produção para o lucro privado... o desenvolvimento da sociedade humana, de tribalismo ao feudalismo, o capitalismo, o socialismo- é provocada pelas necessidades e aspirações da humanidade por uma vida melhor." e também: "A democracia não pode sobreviver em uma América racista".

 Paul Robeson veio a falecer em janeiro de 1976 na Filadélfia vítima de um derrame cerebral, onze anos após a morte de sua esposa Elanda.

"Você
Paul Robeson,
defensor do pão do homem,
honra,
luta,
esperança.
Luz do homem,
filho do sol,
o nosso sol,
sol do subúrbio americano
e das neves vermelhas
dos Andes:
você guarda a nossa luz

cante,
camarada,
cante,
irmão da terra,
cante,
bom pai de fogo,
cante para todos nós..." (Ode a Paul Robeson, por Pablo Neruda)

Paul Robeson cantando a versão em inglês da canção russa Polyushko Polye, música criada em plena Guerra Civil Russa:


Robeson cantando o hino da União Soviética em inglês :

                                                                                                                                                                                            

domingo, 11 de setembro de 2016

Petkovic: o ídolo socialista (?)

Petkovic em charge de Vini Oliveira.

 Dentre a grande quantidade de ídolos que o Vitória obteve ao longo de sua história secular, Dejan Petkovic foi com certeza um dos que mais se destacaram. A aproximação do craque, que completou 44 anos ontem, com o Vitória começa antes mesmo dele vestir a camisa rubro-negra em Salvador. Foi na Espanha, que jogando pelo Real Madrid B, Pet marcou num amistoso contra o Leão e ajudou os merengues na estrondosa goleada por 5 a 1. Esse jogo procedeu na sua contração e sua vinda para o Brasil, onde deslancharia nos gramados. Mas sua história com o socialismo, começa ainda antes do Vitória e do Real Madrid.

 Acontece que Pet nasceu em 1972, em Majdanpek, uma pequena cidade da antiga Iugoslávia socialista, localizada na República Socialista da Sérvia, perto da fronteira com a Romênia. Na época de seu nascimento o líder iugoslavo ainda era o Marechal Josip Broz Tito, que em 1945, junto dos partisans (guerrilheiros) livrou o país das garras do fascismo durante a segunda guerra, em seguida proclamando-o socialista.
O jovem 'Rambo' pelo Radnick Nis.

 Quando Petkovic ingressou na carreira futebolística, em 1987, no time homônimo a sua cidade natal, era apelidado de Rambo pelos companheiros de equipe. Tito já havia falecido e o rodízio de líderes acontecia (a cada um ano o represenante de uma das seis repúblicas era proclamado presidente). Pet ascendeu e chegou a se tornar o jogador profissional mais jovem da Iugoslávia, com 16 anos. Seu bom futebol, o levou de Majdanpek para o Radnick Nis e em seguida para o Estrela Vermelha, equipe fundada por antifascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo ele não estrelando na conquista do último campeonato iugoslavo com a participação das seis nações, no ano seguinte ele ganhou espaço no elenco, pois os principais atletas saíram do país por causa da Guerra Civil Iugoslava. Tal guerra gerou conflitos de enormes proporções no antigo território iugoslavo. Um deles, o Cerco de Sarajevo, na capital da Bósnia, quando a Sérvia (reconhecida pela ONU como sucessora da Iugoslávia) não aceitava reconhecer a independência da Bósnia e da Croácia. Sobre o episódio, o ex-atleta comentou em 2009: "Eu encaro essa separação como um interesse político e econômico. O povo sofreu e houve morte de inocentes".

Jaksic e Petković
Nenad Jacksic e Petkovic, pelo Radnick Nis na Iugoslávia. 

 A guerra instituída prejudicou a carreira do sérvio, que jogou pela seleção iugoslava nas eliminatórias para a Eurocopa de 1992. O país se classificou, mas por via de seus conflitos não pode participar, e seu lugar jogou a Dinamarca, campeã naquele ano. As conflagrações na Iugoslávia atingiam até mesmo a constituição da era Tito, que dizia: "A República Federativa Popular da Iugoslávia é um Estado federal popular de forma republicana, uma comunidade de povos iguais em direitos que, em virtude do direito dos povos de disporem de si mesmos, inclusive o direito de livre separação, exprimiram a sua vontade de viver unidos no Estado federativo" (revista Problemas, 1947, editada por Marighella). Com o Cerco de Sarajevo durando até 1996, Pet foi transferido para o Real Madrid em 1995. Sem muitas chances no clube, foi emprestado a outros times espanhóis, e em 1997, jogando pelo Real Madrid B, foi descoberto pelo Vitória, ao estufar três vezes a rede rubro-negra. Waltercio Fonseca o trouxe pra Toca do Leão, onde ele levou o clube da 14° colocação no Brasileirão para a 6° em cerca de cinco jogos.
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Pelo Vitória em 1998.
 Pet construiu sua carreira no Brasil, sendo ídolo do Vitória, Flamengo, Vasco e Fluminense. Questionado no SporTV sobre o esporte na Iugoslávia, Pet disse: "A gente vivia num país socialista, e o esporte estava presente, tinha tudo, e era uma época muito bonita, muito rica em todas essas coisas". Já em entrevista a Ana Maria Braga, Pet ressaltou: "Na verdade quando eu nasci não tinha problema nenhum. A gente vivia num regime socialista, todo mundo bem, todo mundo trabalhando...". Já em entrevista a Revista Vírus, em 2011, ele disse: "A vida socialista é boa porque todo mundo vive bem, os impostos são todos aplicados realmente nos serviços sociais. Todo mundo vive da mesma maneira, tem um bom salário. Mesmo tendo defendido o socialismo nessas ocasiões, o ex-meia diz que não se define sua vertente política: "Eu não me defino porque eu não sou membro de nenhum partido político na Sérvia, nem aqui. Mas eu sou um cidadão que quer o melhor para a cidadania. No mundo ideal, o socialismo é perfeito".

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Marinaleda, uma cidade socialista na Espanha

A imagem de Che Guevara ao lado do brasão de armas de Marinaleda.
 A resistência da esquerda na Espanha se notabilizou desde a década de 30 pelos conflitos bélicos da Guerra Civil Espanhola. Porém, o país sofreu com a ditadura de Francisco Franco, que viria a acabar somente na década de 70. Em meio a isso, uma cidade agrária hispânica a qual denomina-se Marinaleda, onde situam-se cerca 3000 habitantes, conviveu com uma ampla reforma a qual o próprio país também estava subordinado, deixando de lado as chagas do franquismo.

 Com a redemocratização da Espanha e a abertura de sindicatos nos campos, os camponeses de Marinaleda iniciaram a reforma agrária em fins dos anos 70 com a tomada de dois latifúndios estabelecidos no governo anterior. Em 1979 o professor e sindicalista Juan Manuel Sánchez Gordillo elegeu-se prefeito e promoveu diversas mudanças no cenário do município. As ruas que outrora exaltavam os militares passaram a homenagear nomes como Che Guevara e Salvador Allende.
Marinaleda, Chrismon
Rua Utopia em Marinaleda.
 Ao longo dos anos, outras fazendas foram sendo ocupadas, o que gerou diversas ações judiciais e ao mesmo tempo a conquista de hectares por parte dos trabalhadores do campo. Na década de 90 criaram-se as cooperativas e fábricas que corroboraram o desenvolvimento da jurisdição da Andaluzia. A partir de 2008, a crise econômica gerada pelos EUA, diversos países da UE foram prejudicados, inclusive na própria Andaluzia, onde as taxas de desemprego batiam 30%. Marinaleda porém seguia estável na empregabilidade.
Marinaleda, Chrismon
Bairro cooperativo de Marinaleda, com campo de futebol, moradias populares e plantações ao fundo.
 As cooperativas costumam ter 400 pessoas trabalhando, e o salário gira em torno de 1200 euros, mesma quantidade recebida por servidores públicos da cidade. O salário dos trabalhadores em geral, independente de cargo é de 47 euros por jornada de trabalho, visto que cada jornada gira em torno de 35 horas semanais. Quanto a moradia, a cidade foi na contramão das imobiliárias e por 15 euros ao mês pode-se obter residência, pois foram construídas 350 habitações de forma cooperativa.
Marinaleda, Chrismon
Bandeiras socialistas e feministas pintadas em um muro da cidade.
O Conselho da Cidade possui onze vereadores, sendo nove deles do IULV-CA (Izquierda Unida Los Verdes- Convocatoria por Andalucia) e dois do PSOE (Partido Socialista Obrero Español). Por meio de assembleias, os políticos tomam suas decisões e o sindicato é que define. Bairro por bairro eles vão atendendo as necessidades da população.

 Isso tudo se deve a gestão de Gordillo como prefeito, que em 1991 conseguiu em parceria com o governo estadual da Andaluzia um lote de 1200 hectares de terra improdutiva, que pertencia a fazenda El Humoso. Dali em diante deu-se início a empreitada, que hoje possui trabalhadores atuando na lavoura e na indústria.

Abaixo, reportagem de uma TV lusitana sobre Marinaleda:
                                       

terça-feira, 29 de março de 2016

Em 1945, rubro-negros e tricolores se unem no futebol e na política

Dupla BaVi unida antes de uma partida. No meio de Istalino e Joel, está o árbitro Mário Vianna.
 Diferentemente do atual momento vivido no futebol baiano, no qual presidentes da dupla BaVi trocam farpas no caso Victor Ramos, na década de 40, ambas as equipes juntaram-se contras as arbitrariedades da FBDT (Federação Bahiana de Desportos Terrestres). A coincidência de semi-rivais unindo-se em prol de algo se deu no mesmo ano, no campo da política, quando o ex-presidente do rival, Lô Costa Pinto apoiou Marighella em sua campanha para deputado federal.

 No primeiro caso, o ainda Sport Club Victória, sob a presidência do Dr. Luiz Lago de Araújo chegou a pedir o afastamento da Liga Bahiana de Desportos Terrestres. Isso porque em 1944, o então presidente da federação, Antonio Bendocchi suspendeu os presidentes do Vitória, Bahia, Galícia e Fluminense de Feira. Naquele ano, quem assumiu a presidência da FBDT foi Orlando Gomes, e foi sob sua tutela que a federação pouco se queixou do afastamento rubro-negro, demonstrando acatamento após dirigir uma nota ao presidente do Leão.

 Foi em 5 de Outubro, que os clubes se reuniram na sede do Bahia. Com apoio do clube que viria a ser o seu rival, do Galícia e também do Flu de Feira, o Vitória encontrou forças para prosseguir na competição e até teve um de seus atletas entre os artilheiros, Siri.

 No mesmo ano, porém, cerca de dois meses depois, viria a acontecer as eleições gerais. O Brasil em processo de redemocratização, pós-varguismo elegeria seus deputados, dentre eles o baiano Carlos Marighella, candidato pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) na Bahia. Para a sua candidatura pelo partidão, Marighella teve o apoio de ninguém menos que Carlos Costa Pinto, conhecido também como Lô, que fora presidente do Bahia em 1937 e colega de curso de Marighella.

Em 1945, Marighella viria a ser eleito deputado federal pelo Partidão.

 Como conta a biografia "Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo" de Mário Magalhães: "Ex-presidente do Esporte Clube Bahia e filho de um colecionador de arte, Lô era sócio da construtora que acabara de erguer o Edifício Oceania em frente ao farol da Barra". Se o amigo era tricolor, o então candidato era rubro-negro e discursava em Salvador tanto em denúncia a mortalidade infantil da época, quanto em prol da construção de um estádio de futebol. Isso culminou na construção da Fonte Nova em 1951, na mesma rua onde ele havia nascido. A eleição aconteceu em dezembro e Marighella se elegeu com 5188 votos.