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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Em 1946: A homenagem de Marighella a um general da FEB

Á esquerda da imagem o general Mascarenhas, proclamado como marechal naquele dia. No lado direito, o deputado Carlos Marighella proferindo o discurso em homenagem ao marechal e a FEB. (Foto: Tribuna Popular, 1946)

 Nos dias atuais, o Brasil viu o general Villas Bôas fazer sua aparição na mídia incitando uma eventual intervenção militar e inflamando ainda mais a instabilidade política do país. Muito tem se falado sobre a falta de idoneidade general-de-exército em estimular um novo golpe militar ao país. Como dizia o saudoso Lamarca: "Tarefa militar é tarefa política". Mas quando esta tarefa militar-política propõe aplicar algo que já mostrou-se danoso ao povo e ameaça voltar de novo, provoca-se uma série de direitos conquistados pós-ditadura. Em outros tempos, quando os militares da FEB (Força Expedicionária Brasileira) não tinham a proposta de serem golpistas como foram os de 1964 e como ameaçam ser os de hoje, generais eram recebidos com imensa satisfação pelo povo brasileiro por terem combatido para livrar a Itália do fascismo. 

 Em 1946, o general Mascarenhas de Morais, combatente na Campanha da Itália, foi homenageado no congresso brasileiro, valendo a ele a patente máxima de Marechal. Entre seus homenageadores estavam o deputado baiano Vieira de Melo (PSD). Além dele outro baiano, ninguém menos que o também deputado Carlos Marighella (PCB). Em homenagem ao militar, Marighella proclamou o seguinte discurso:

"Sr. Presidente. Sr. Marechal Mascarenhas de Morais. Srs. Ministros e demais autoridades presentes. Grande honra é para o Partido Comunista interpretar os sentimentos do nosso povo. Saudando a gloriosa Força Expedicionária Brasileira na pessoa de seu comandante em chefe. Para isso nos reunimos nesta casa - a mais alta encarnação da soberania popular - e como se fossemos uma única vontade - todos os partidos aqui representados - confraternizamos nesta homenagem a um valoroso cabo de guerra. 

 Sr. Marechal. Confirma agora esta Assembleia o apreço que vos tem. Pois - como sabeis - antes, neste mesmo recinto, por unanimidade de votos, vos haviam sido concedidas, sem a vossa presença aliás, as honras de Marechal de nosso glorioso Exército. A verdade é que nenhum patriota pode desconhecer o papel de nossos soldados e marinheiros de guerra. 
(...)

 Somos insuspeitos para dizê-lo sr. Marechal, nós os comunistas que vos saudamos. Perseguidos durante mais de duas décadas, reduzidos a uma ilegalidade brutal, presos e deportados na maior parte os novos dirigentes, não negamos o nosso apoio ao governo que fazia guerra contra o banditismo nazistas. 

(...)

 Quando mais não bastassem os esforços conjugados das Forças Armadas, do povo e do governo para esmagar o fascismo, pelo menos haveríamos de nos sentir recompensados com o resultados obtido - a volta do país a legalidade democrática. Vossa presença nesta Casa sr. Marechal, significa, por sem dúvida, um marco histórico na Marcha da Democracia, uma nova fase nos costumes políticos do país. 

(...)

 Cremos, porém, tenha sido o nosso governo advertido dos interesses da Nação. O Exmo. Sr. Gen. Eurico Gaspar Dutra é homem da lei, e - como vós - rijo soldado do nosso Exército. No alto posto que ocupa há de ver e sentir o que reina por entre nós. Como comunistas - e não cremos que outro seja o propósito das demais forças políticas aqui agrupadas - o nosso desejo é o apoio franco, leal e sincero ao governo. 

 Possa, assim, sr. Marechal, a vossa presença nesta Casa servir mais uma vez aos interesses da Pátria, e que, pela saudação que ora vos fazemos, saiba a Nação do clamor de todos os brasileiros por um governo de confiança nacional, pelo asseguramento da democracia com a nova carta constitucional, por cuja aplicação o Partido Comunista se baterá e da qual será defensor intransigente."

O discurso de Marighella remonta a uma importante frase: "Está fadada ao fracasso a esquerda que não está em sintonia com seus militares.", o Marechal Mascarenhas chegou a dirigir uma carta para o deputado comunista Milton Caires de Brito em agradecimento ao discurso pecebista. Em tempos onde vozes como a de Villas Bôas ecoam nos ouvidos do povo, faz-se cada vez mais importante uma alternativa de esquerda as infames declarações do oficial. Tal como ele, seu antecessor, Enzo Peri, chegou a dar ordem para os militares do exército não darem depoimentos a Comissão da Verdade. Por mais infeliz que seja, as viúvas da ditadura militar ainda estão nas fileiras das forças armadas, e com a crescente reacionária não têm mais medo de prejudicar ainda mais o país.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Futebol e polítca: uma relação brasileira mais que explícita

Santinhos de ex-jogadores e esportistas nas eleições gerais de 1986.

 "Futebol e política (e religião) não se discutem", assim diz um famoso mantra nacional. O fato é que a relação do futebol com a política no Brasil transcende gerações e antecede o discurso de que não se deve misturar o esporte bretão a política. No Vitória em específico a política sempre esteve presente na vida do clube. Desde sua fundação até a década atual não faltou no conselho do clube políticos entre a dirigência e o conselho do Leão da Barra. O fato vivenciado no rubro-negro ao longo dos seus 118 anos faz também parte de outros diversos clubes do futebol nacional. De Norte a Sul a cartolagem política se fez presente no esporte mais querido da nação, seja por paixão ou promoção eleitoral.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Popó... o artilheiro baiano que driblou o racismo

Popó pela Seleção Bahiana em 1934.


 Se na década de 10 o futebol baiano era um reduto de racismo, proclamado pelos times da elite, dentre os quais o próprio Vitória, essa situação começaria a cambiar na década seguinte. Quando a Liga Bahiana de Desportos Terrestres passou a permitir a entrada de jogadores negros na competição, o próprio Leão da Barra se opôs a ideia, e assim acabou ficando recluso do futebol no restante da década. Em revés disso, o Ypiranga fundado em detrimento do aniversário da Independência do Brasil, por jovens que estavam ás margens da sociedade, nasceu com um espírito de revolucionar o futebol local.

 É nesse cenário, num misto de elitismo e popularidade que se encontrava o futebol baiano no início do século 20. O Vitória que nascera como clube de cricket, era discriminado por rapazes ingleses, e tal discriminação segue já no futebol. Por via disso, um rapaz negro, chamado Apolinário Santana ganhara destaque na história do desporto baiano e nacional. Ele era conhecido nos gramados como Popó, fora dele seu nome de batismo já nomeou rua em Salvador e também a taça do Baianão de 2002, ano em que o rubro-negro levantou o caneco. 
Um esboço do Craque do Povo com a camisa do Ypiranga.

 Popó se destacou no em clubes como o Botafogo-BA, São Benta-BA, Bahiano de Tênis... mas foi com a camisa do Ypiranga seus maiores feitos. Não é atoa que é até hoje o maior ídolo do clube, e também na época era o craque preferido de Jorge Amado. Tal como o escritor, ele era adorado também pela beata Irmã Dulce. Os feitos de Popó não se resumiram aos títulos, foi pioneiro ao se tornar o primeiro jogador negro de destaque nacional, e foi o Ypiranga também um clube pioneiro no quesito do ingresso dos negros no futebol, fato que ocorreria com o Vasco da Gama em seguida. Em campo, uma de suas maiores façanhas foi quando em um amistoso contra o Fluminense no Campo da Graça, marcou os cinco gols da vitória aurinegra em 5 a 4. Os jornais cariocas noticiavam no dia seguinte: "Popó 5 x 4 Fluminense". E dessa forma, qualquer outro jogador que se destacasse em um confronto diante do tricolor era apelidado de Popó. 

 Com a camisa do Vitória, Popó jogou somente duas partidas. A primeira ocasião foi 05 de abril de 1923, quando o São Bento o emprestou para o Leão jogar um amistoso contra o Fluminense. É dessa forma, que Apolinário Santana atravessou barreiras no esporte bretão. O Vitória que anos antes negava os futebolistas negros em sua liga, recebia agora um destes de braços abertos. E isso contribuiu para que portas fossem abertas para outros futebolistas negros, tanto no Vitória como no futebol baiano. Tais quais como Bahianinho, Siri, Juvenal e por aí seguindo. No amistoso disputado em uma quinta-feira na Graça, Popó marcou de pênalti pro Vitória e Coelho fez pro Fluminense, tendo o jogo terminado em 1 a 1. Mais de dez anos depois, em 20 de março de 1934, outro amistoso reuniu Popó e o Vitória. Novamente na Graça, pra um público de 335 espectadores, Raul Coringa e Popó - de novo de pênalti - marcaram na vitória em 2 a 1 sobre a Seleção Paulista, que naquele ano ainda viria a ser vice-campeã nacional para a Seleção Bahiana. Pelo triunfo diante do time da Pauliceia, o Vitória ainda foi presenteado com uma taça.

 A popularidade do atleta ia as alturas. Recebeu alcunhas como "Terrível" e "O Craque do Povo". Mas nem tudo foram flores. Popó encerrou a carreira em 1937, tendo sido seu último clube o Madureira-RJ, e terminou a carreira de jogador já pobre, pedindo esmolas no entorno da Fonte Nova. O fato se assemelha ao destino de outro jogador negro do futebol baiano. Perivaldo, ex-atleta do Bahia, que desde 2014 trabalha no Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj), viveu nas ruas de Lisboa como sem-teto até 2013, tendo de vender roupas usadas para se sustentar. Popó que depois dos tempos áureos nos gramados tornou a viver a margem da sociedade, morreu nesta mesma data, 17 de fevereiro, no ano de 1955.

Poemas:

Jogadores?! Nem se conta!
Mas foi o rei, isto é sabido,
Apolinário Santa
Popó seu apelido
Foi Botafogo e Ypiranga
Não brigava ou tinha zanga
Era um Deus enaltecido 
(Por Edson Bulos)

Chuta, chuta, Popó chuta
Chuta por favor
Mela, mela, mela, mela
Mela e lá vai gol
(Cantiga junina soteropolitana da primeira metade do século 20. O termo 'mela' significa drible.)

1987.
Estava em Salvador.
Cascavilhando a mim mesmo.
Cidade alta, velha pensão. 
Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.
Paisagem diferente da mansão á beira mar onde morreu.
O homem que era nada. 
O homem que tornou-se cravo e canela. 
Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.
E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.
A vida é o Pelourinho da alma.
Dona Flor?
O remédio.
Durante minha estada em Salvador. 
Futebol era assunto de conversa.
Popó!
Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios
me contou a seguinte história:
"Popó!"
Salvador de todos os santos e negros era branca.
Pelo menos nos times de futebol. 
Até chegar o Popó.
Popó de habilidade incomparável.

Jorge Amado gostava da bola.
De política. 
Mas como futebol podia ser branco?
O Ypiranga se revolta.
"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola"
Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.
Jorge Amado se veste de amarelo.
Naquela mesma casa pobre.
Olhos postos no mar.
Popó marcando gols.
Jorge Amado não resiste.
Campo da Graça.
O jovem escritor grita gol de Popó.
Ao seu lado.
Uma menina e seu pai.
Pulam em delírio.
Jorge Amado se abraça aos dois.
O comunista e a santa.
Não resisti e perguntei:
"Santa?"
O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.
"Pois é.... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"

Escureceu.
Já não havia homem velho.
Já não havia cigarro.
Apenas o mar da infinita Salvador. 
Voltei caminhando para a pousada. 
O farol me indicando o descaminho.
Eu e meus pensamentos.
O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.
Terra de comunistas.
E santos.
Todos os santos...

(O Comunista e a Santa, de Roberto Vieira)

sábado, 15 de outubro de 2016

Paul Robeson... de esportista a ativista



 É evidente que os movimentos de cunho anti-racista nos Estados Unidos do século XX foram bastante influenciados pelo socialismo. Os conflitos raciais que se acentuavam no começo da era novecentista se estenderam por longas décadas, tendo seu ápice com as manifestações de Luther King e os Panteras Negras. Muito antes disso, revoltas como a Rebelião de Omaha foram marcos da história estadunidense, e numa época onde a população negra era segregada, tendo de se ater aos padrões da sociedade americana, um afro-americano de Princeton foi em contrapartida de todo o nacionalismo, destacando-se pela luta de direitos civis.

 Paul Robeson nasceu em Princeton em abril de 1898, sendo o caçula de cinco irmãos. Filho de um ex-escravo fugitivo e de uma mãe que vinha de uma família abolicionista, aos 17 anos ele ganha uma bolsa de estudos na Universidade de Rutgers, na qual praticou esportes como beisebol, basquete e atletismo. Dali sofrera com o racismo dos colegas de equipe, embora ele tenha atuado por duas equipes de futebol americano, a Akron Pros e a Milwaukee Badgers. No entanto, seu nome só foi introduzido no salão de futebol da faculdade cerca de vinte anos após a sua morte.
Como jogador de futebol americano na época de faculdade.

 Como estudante da Faculdade de Direito de Columbia, Robeson conheceu Eslanda Cordoza, com que se casou. Eslanda também negra, foi pioneira ao ser a primeira afro-americana a dirigir um laboratório de patologia. O marido por sua vez, já trabalhando como ator, viria a ser o primeiro negro a interpretar o papel de Otelo, na peça de Shakespeare. Acontece que enquanto trabalhava com a advocacia, o ex-esportista foi desacatado por um secretário branco e passou a trabalhar com artes para difundir a cultura africana e afro-americana. Sendo assim, entre as décadas de 1920 e 1930, ele atuou em diversos filmes e chegou até a ser condecorado como melhor ator em um festival de 1944. Ao viver na Europa no fim dos anos 20, ele constatou que o racismo não era algo tão feroz no Velho Continente como era em seu país natal.

  O fato alertou Robeson para as adversidades que o racismo trazia. Foi dessa forma que ele ingressou no ativismo político, apoiando o Pan-africanismo no auge de sua carreira artística, cantando em prol de movimentos sociais e de trabalhadores em 25 línguas pelos EUA, URSS, África e Europa. Com o sentimento antifascista, ele mantinha amizade com a anarquista Emma Goldman e chegou a doar a renda de um festival para povos judeus refugiados do nazismo. Em 1937 participou de um comício antifascista na Guerra Civil Espanhola onde disse: "O artista deve optar por lutar pela liberdade ou escravidão. Eu fiz minha escolha. Eu não tinha alternativa".
Paul Robeson na União Soviética.

 Quando conviveu com soviéticos nos anos 30, Robeson foi tratado com dignidade, tendo sido adorado por moscovitas. Na capital Moscou, ele estudou russo, assim como seu único filho Paul Robeson Jr. que lá morou com a avó. Ele voltara aos Estados Unidos por volta de 1943, época em que se viu discutindo com funcionários do governo americano. Voltado contra o machartismo e as doutrinas de opressão que os cercava, Paul Robeson chegou a ser investigado pelo FBI e teve seu passaporte apreendido em 1950. Isso não o impediu de ser homenageado por soviéticos em 1952 com o Prêmio Lenin da Paz, juntamente com a brasileira Eliza Branco.
Robeson em uma festa da embaixada soviética nos EUA, em 1950, quando se comemoravam 33 anos da Revolução Russa.

 Em 1958 escreveu sua autobiografia na qual fez importantes declarações acerca do socialismo, como: "Em muitas ocasiões manifestaram publicamente a minha crença no socialismo científico, a profunda convicção de que para todos a humanidade de uma sociedade socialista representa um avanço para um estágio superior de vida - que é uma forma de sociedade que seja econômica, social, cultural e eticamente superiores a um sistema baseado na produção para o lucro privado... o desenvolvimento da sociedade humana, de tribalismo ao feudalismo, o capitalismo, o socialismo- é provocada pelas necessidades e aspirações da humanidade por uma vida melhor." e também: "A democracia não pode sobreviver em uma América racista".

 Paul Robeson veio a falecer em janeiro de 1976 na Filadélfia vítima de um derrame cerebral, onze anos após a morte de sua esposa Elanda.

"Você
Paul Robeson,
defensor do pão do homem,
honra,
luta,
esperança.
Luz do homem,
filho do sol,
o nosso sol,
sol do subúrbio americano
e das neves vermelhas
dos Andes:
você guarda a nossa luz

cante,
camarada,
cante,
irmão da terra,
cante,
bom pai de fogo,
cante para todos nós..." (Ode a Paul Robeson, por Pablo Neruda)

Paul Robeson cantando a versão em inglês da canção russa Polyushko Polye, música criada em plena Guerra Civil Russa:


Robeson cantando o hino da União Soviética em inglês :

                                                                                                                                                                                            

domingo, 11 de setembro de 2016

Petkovic: o ídolo socialista (?)

Petkovic em charge de Vini Oliveira.

 Dentre a grande quantidade de ídolos que o Vitória obteve ao longo de sua história secular, Dejan Petkovic foi com certeza um dos que mais se destacaram. A aproximação do craque, que completou 44 anos ontem, com o Vitória começa antes mesmo dele vestir a camisa rubro-negra em Salvador. Foi na Espanha, que jogando pelo Real Madrid B, Pet marcou num amistoso contra o Leão e ajudou os merengues na estrondosa goleada por 5 a 1. Esse jogo procedeu na sua contração e sua vinda para o Brasil, onde deslancharia nos gramados. Mas sua história com o socialismo, começa ainda antes do Vitória e do Real Madrid.

 Acontece que Pet nasceu em 1972, em Majdanpek, uma pequena cidade da antiga Iugoslávia socialista, localizada na República Socialista da Sérvia, perto da fronteira com a Romênia. Na época de seu nascimento o líder iugoslavo ainda era o Marechal Josip Broz Tito, que em 1945, junto dos partisans (guerrilheiros) livrou o país das garras do fascismo durante a segunda guerra, em seguida proclamando-o socialista.
O jovem 'Rambo' pelo Radnick Nis.

 Quando Petkovic ingressou na carreira futebolística, em 1987, no time homônimo a sua cidade natal, era apelidado de Rambo pelos companheiros de equipe. Tito já havia falecido e o rodízio de líderes acontecia (a cada um ano o represenante de uma das seis repúblicas era proclamado presidente). Pet ascendeu e chegou a se tornar o jogador profissional mais jovem da Iugoslávia, com 16 anos. Seu bom futebol, o levou de Majdanpek para o Radnick Nis e em seguida para o Estrela Vermelha, equipe fundada por antifascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo ele não estrelando na conquista do último campeonato iugoslavo com a participação das seis nações, no ano seguinte ele ganhou espaço no elenco, pois os principais atletas saíram do país por causa da Guerra Civil Iugoslava. Tal guerra gerou conflitos de enormes proporções no antigo território iugoslavo. Um deles, o Cerco de Sarajevo, na capital da Bósnia, quando a Sérvia (reconhecida pela ONU como sucessora da Iugoslávia) não aceitava reconhecer a independência da Bósnia e da Croácia. Sobre o episódio, o ex-atleta comentou em 2009: "Eu encaro essa separação como um interesse político e econômico. O povo sofreu e houve morte de inocentes".

Jaksic e Petković
Nenad Jacksic e Petkovic, pelo Radnick Nis na Iugoslávia. 

 A guerra instituída prejudicou a carreira do sérvio, que jogou pela seleção iugoslava nas eliminatórias para a Eurocopa de 1992. O país se classificou, mas por via de seus conflitos não pode participar, e seu lugar jogou a Dinamarca, campeã naquele ano. As conflagrações na Iugoslávia atingiam até mesmo a constituição da era Tito, que dizia: "A República Federativa Popular da Iugoslávia é um Estado federal popular de forma republicana, uma comunidade de povos iguais em direitos que, em virtude do direito dos povos de disporem de si mesmos, inclusive o direito de livre separação, exprimiram a sua vontade de viver unidos no Estado federativo" (revista Problemas, 1947, editada por Marighella). Com o Cerco de Sarajevo durando até 1996, Pet foi transferido para o Real Madrid em 1995. Sem muitas chances no clube, foi emprestado a outros times espanhóis, e em 1997, jogando pelo Real Madrid B, foi descoberto pelo Vitória, ao estufar três vezes a rede rubro-negra. Waltercio Fonseca o trouxe pra Toca do Leão, onde ele levou o clube da 14° colocação no Brasileirão para a 6° em cerca de cinco jogos.
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Pelo Vitória em 1998.
 Pet construiu sua carreira no Brasil, sendo ídolo do Vitória, Flamengo, Vasco e Fluminense. Questionado no SporTV sobre o esporte na Iugoslávia, Pet disse: "A gente vivia num país socialista, e o esporte estava presente, tinha tudo, e era uma época muito bonita, muito rica em todas essas coisas". Já em entrevista a Ana Maria Braga, Pet ressaltou: "Na verdade quando eu nasci não tinha problema nenhum. A gente vivia num regime socialista, todo mundo bem, todo mundo trabalhando...". Já em entrevista a Revista Vírus, em 2011, ele disse: "A vida socialista é boa porque todo mundo vive bem, os impostos são todos aplicados realmente nos serviços sociais. Todo mundo vive da mesma maneira, tem um bom salário. Mesmo tendo defendido o socialismo nessas ocasiões, o ex-meia diz que não se define sua vertente política: "Eu não me defino porque eu não sou membro de nenhum partido político na Sérvia, nem aqui. Mas eu sou um cidadão que quer o melhor para a cidadania. No mundo ideal, o socialismo é perfeito".

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Marinaleda, uma cidade socialista na Espanha

A imagem de Che Guevara ao lado do brasão de armas de Marinaleda.
 A resistência da esquerda na Espanha se notabilizou desde a década de 30 pelos conflitos bélicos da Guerra Civil Espanhola. Porém, o país sofreu com a ditadura de Francisco Franco, que viria a acabar somente na década de 70. Em meio a isso, uma cidade agrária hispânica a qual denomina-se Marinaleda, onde situam-se cerca 3000 habitantes, conviveu com uma ampla reforma a qual o próprio país também estava subordinado, deixando de lado as chagas do franquismo.

 Com a redemocratização da Espanha e a abertura de sindicatos nos campos, os camponeses de Marinaleda iniciaram a reforma agrária em fins dos anos 70 com a tomada de dois latifúndios estabelecidos no governo anterior. Em 1979 o professor e sindicalista Juan Manuel Sánchez Gordillo elegeu-se prefeito e promoveu diversas mudanças no cenário do município. As ruas que outrora exaltavam os militares passaram a homenagear nomes como Che Guevara e Salvador Allende.
Marinaleda, Chrismon
Rua Utopia em Marinaleda.
 Ao longo dos anos, outras fazendas foram sendo ocupadas, o que gerou diversas ações judiciais e ao mesmo tempo a conquista de hectares por parte dos trabalhadores do campo. Na década de 90 criaram-se as cooperativas e fábricas que corroboraram o desenvolvimento da jurisdição da Andaluzia. A partir de 2008, a crise econômica gerada pelos EUA, diversos países da UE foram prejudicados, inclusive na própria Andaluzia, onde as taxas de desemprego batiam 30%. Marinaleda porém seguia estável na empregabilidade.
Marinaleda, Chrismon
Bairro cooperativo de Marinaleda, com campo de futebol, moradias populares e plantações ao fundo.
 As cooperativas costumam ter 400 pessoas trabalhando, e o salário gira em torno de 1200 euros, mesma quantidade recebida por servidores públicos da cidade. O salário dos trabalhadores em geral, independente de cargo é de 47 euros por jornada de trabalho, visto que cada jornada gira em torno de 35 horas semanais. Quanto a moradia, a cidade foi na contramão das imobiliárias e por 15 euros ao mês pode-se obter residência, pois foram construídas 350 habitações de forma cooperativa.
Marinaleda, Chrismon
Bandeiras socialistas e feministas pintadas em um muro da cidade.
O Conselho da Cidade possui onze vereadores, sendo nove deles do IULV-CA (Izquierda Unida Los Verdes- Convocatoria por Andalucia) e dois do PSOE (Partido Socialista Obrero Español). Por meio de assembleias, os políticos tomam suas decisões e o sindicato é que define. Bairro por bairro eles vão atendendo as necessidades da população.

 Isso tudo se deve a gestão de Gordillo como prefeito, que em 1991 conseguiu em parceria com o governo estadual da Andaluzia um lote de 1200 hectares de terra improdutiva, que pertencia a fazenda El Humoso. Dali em diante deu-se início a empreitada, que hoje possui trabalhadores atuando na lavoura e na indústria.

Abaixo, reportagem de uma TV lusitana sobre Marinaleda:
                                       

terça-feira, 29 de março de 2016

Em 1945, rubro-negros e tricolores se unem no futebol e na política

Dupla BaVi unida antes de uma partida. No meio de Istalino e Joel, está o árbitro Mário Vianna.
 Diferentemente do atual momento vivido no futebol baiano, no qual presidentes da dupla BaVi trocam farpas no caso Victor Ramos, na década de 40, ambas as equipes juntaram-se contras as arbitrariedades da FBDT (Federação Bahiana de Desportos Terrestres). A coincidência de semi-rivais unindo-se em prol de algo se deu no mesmo ano, no campo da política, quando o ex-presidente do rival, Lô Costa Pinto apoiou Marighella em sua campanha para deputado federal.

 No primeiro caso, o ainda Sport Club Victória, sob a presidência do Dr. Luiz Lago de Araújo chegou a pedir o afastamento da Liga Bahiana de Desportos Terrestres. Isso porque em 1944, o então presidente da federação, Antonio Bendocchi suspendeu os presidentes do Vitória, Bahia, Galícia e Fluminense de Feira. Naquele ano, quem assumiu a presidência da FBDT foi Orlando Gomes, e foi sob sua tutela que a federação pouco se queixou do afastamento rubro-negro, demonstrando acatamento após dirigir uma nota ao presidente do Leão.

 Foi em 5 de Outubro, que os clubes se reuniram na sede do Bahia. Com apoio do clube que viria a ser o seu rival, do Galícia e também do Flu de Feira, o Vitória encontrou forças para prosseguir na competição e até teve um de seus atletas entre os artilheiros, Siri.

 No mesmo ano, porém, cerca de dois meses depois, viria a acontecer as eleições gerais. O Brasil em processo de redemocratização, pós-varguismo elegeria seus deputados, dentre eles o baiano Carlos Marighella, candidato pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) na Bahia. Para a sua candidatura pelo partidão, Marighella teve o apoio de ninguém menos que Carlos Costa Pinto, conhecido também como Lô, que fora presidente do Bahia em 1937 e colega de curso de Marighella.

Em 1945, Marighella viria a ser eleito deputado federal pelo Partidão.

 Como conta a biografia "Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo" de Mário Magalhães: "Ex-presidente do Esporte Clube Bahia e filho de um colecionador de arte, Lô era sócio da construtora que acabara de erguer o Edifício Oceania em frente ao farol da Barra". Se o amigo era tricolor, o então candidato era rubro-negro e discursava em Salvador tanto em denúncia a mortalidade infantil da época, quanto em prol da construção de um estádio de futebol. Isso culminou na construção da Fonte Nova em 1951, na mesma rua onde ele havia nascido. A eleição aconteceu em dezembro e Marighella se elegeu com 5188 votos.

sábado, 12 de março de 2016

Naná Vasconcelos, entre a esquerda e o futebol

Homenagem do Santa Cruz pela passagem de Naná Vasconcelos aos 71 anos.

 Faleceu na última quarta-feira (9) no Recife o músico Naná Vasconcelos, vítima de uma parada respiratória. O pernambucano Juvenal de Holanda Vasconcelos está numa linha tênue entre a esquerda e o futebol. Apesar de não se declarar comunista e tampouco um torcedor fanático, o ex-percussionista tem suas músicas ligadas tanto ao esporte bretão quanto a política.

 Em 2006 Naná lançou o seu álbum "Trilhas", que continha a canção "Quase irmãos". A música fez parte do filme praticamente homônimo, chamado Quase Dois Irmãos. O longa de Lúcia Murat contava a história de Miguel e Jorginho, amigos de infância de classes sociais distintas. Miguel viria a ser preso político em plena ditadura militar e na prisão de Ilha Grande reecontraria Jorginho que estava na vida do crime. A película aborda a divergência de privilégios tidas pelos presos políticos e presos comuns, demonstrando uma face menos humanizada da esquerda brasileira. Já em outra época do filme, os dois voltam a se reencontrar. Jorginho novamente na prisão, sendo chefe do narcotráfico, e Miguel como deputado. A vida dos dois se entrelaçam ainda mais quando a filha do político se envolve com traficantes comandados por Jorginho. Dessa forma, o filme termina com a música feita por Naná sendo exibida ao mesmo momento em que aparece imagens de contrates social na cidade do Rio de Janeiro, como a aproximação de prédios arranha-céus com os morros.


 Por outro lado, Naná tinha também sua aproximação com o futebol. Como o próprio afirmou: "não sou fanático, mas adoro o futebol-arte, objetivo e claro". Dessa forma ainda se afirmou como um 'torcedor sofredor' do Santa Cruz. Uma de suas composições traz os seguintes versos: "Não deixe o futebol perder a dança/ Nem perca esse sorriso de criança...". Sobre a canção, o músico ressaltara: "Na música, o primeiro instrumento é a voz e o melhor instrumento é o corpo. No futebol, o primeiro instrumento é a bola e o melhor instrumento do corpo".

quinta-feira, 10 de março de 2016

Em Minas, escola de boxe é criada com o nome de Marighella

Logotipo da Escola de Boxe Marighella.


 Em setembro de 2015, um professor de educação física teve como iniciativa a criação de uma escola de boxe voluntária no interior de Minas Gerais. Na cidade de Itabirito, que está localizada há 57 km de Belo Horizonte, deu-se a criação da Escola de Boxe Marighella, projeto que acontece num bairro simples da jurisdição e visa atrair o público infanto-juvenil para participar de atividades de luta, como é o pugilismo.

 Sendo o projeto, algo de espontânea voluntariedade, a escola se mantém a partir de rifas que são feitas para a compra de materiais, necessários ao treino, e também de patrocínios de comerciantes da localidade. Conta o professor Alexandre Sérvulo que a academia leva o nome de Carlos Marighella porque o reconhece como um dos maiores heróis nacionais, que lutou pela justiça e contra a opressão do homem pelo homem.

- Apesar de não ter sido boxeador, Marighella foi um grande lutador pelos ideais de justiça e praticava e reconhecia a importância de atividades físicas. - conta o professor.

O professor do projeto, Alexandre Sérvulo entre as crianças. Acima um poster de Carlos Marighella.

 A escola tem como intuito também formar ótimos boxeadores e a consciência crítica dos que participam. Dessa forma, parte do treinamento é dedicado a filmes, discussões, frases e tudo mais que sirva para desenvolver a consciência da importância tanto da luta nos ringues, quanto da luta por um mundo mais justo.

- No final de cada treino fazemos saudação a Carlos Marighella. - completou Alexandre.

Marighella e o boxe

 Se o percursor da escola admira a disposição de Marighella, de forma recíproca o ex-guerrilheiro era admirador do boxe. Nos ringues, o baiano era fã de Éder Jofre, tido por alguns como o maior peso-galo da história. Certa feita, nos tempos da ditadura militar, Marighella chegava a largar as reuniões do PCB para assistir pela televisão as lutas do pugilista.

 Conhecido como "Galinho de Ouro", Éder Jofre era sobrinho de Waldemar Zumbano, que por sua vez, era camarada de Marighella. Como conta a biografia "Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo", escrita por Mário Magalhães, Zumbano por volta de 1930: "...era um boxeur que devido á perseguição policial vivia peregrinando pelo interior a desafiar fortões. Como sua identificação lhe custaria a liberdade, ele adotara o nome de Frank Éder, que uma irmã eternizou, em 1936, ao batizar o filho como Éder. O menino Éder Jofre se transformaria no maior lutador do boxe brasileiro, conquistaria os cinturões mundiais dos pesos galo e pena e teria como fã o capoerista Marighella.". 

E.C. Vitória e o boxe:

 Apesar de não ser um clube com atletas voltados para o boxe, o Vitória possui atletas no taekwondo, no judô, jiu-jitsu e no MMA. Por sua vez, o baiano Acelino "Popó" Freitas, um dos maiores nome do pugilismo no Brasil é torcedor nato do Leão da Barra, tendo sido um dos integrantes da principal organizada do clube, a Torcida Uniformizada Os Imbatíveis.

Popó entre os membros da Torcida Uniformiza Os Imbatíveis.