sexta-feira, 3 de junho de 2016

O futebol em países socialistas: URSS


Seleção francesa na URSS nos anos 50. Ao fundo imagens de Lenin e Stalin. (Créditos: Comunismo en imágens modificadas)

 O incentivo ao esporte sempre se mostrou muito presente nos países socialistas. Cuba e União Soviética por muitas vezes foram países de destaque em competições olímpicas e até mesmo futebolísticas, chegando a ser protagonista até na Copa do Mundo. Mesmo com o futebol tendo surgido na Rússia desde a época czarista, ele se popularizou a partir da década de 1930 com a criação do Campeonato Soviético de Futebol, que teve como primeiro campeão não-russo o Dinamo de Kiev.

Os campeonatos

 Na década de 20, foram fundados na Rússia clubes como o Zenit na cidade de Leningrado (atual São Petesburgo) e o Dínamo Moscou, criado na capital, este fundado pelo comunista e presidente da Tcheka (polícia secreta da URSS), o polonês Felix Dzerzhinsky. O CSKA por sua vez, fora criado em 1911. O CSKA que a época se chamava OLSS foi fundamentado pelo Exército Russo da era czarista e após a Revolução Russa de outubro de 1917 mudou sua sigla para OPPV e passou a ser comandado pelo Exército Vermelho. O futebol soviético teve seu prelúdio em Moscou, com campeonatos amadores. Somente em 1936 viria a surgir um campeonato nacional, o que foi um marco pro esporte do país. Nesse ano ocorreram dois campeonatos, o de outono, vencido pelo Dínamo e o de primavera, vencido pelo Spartak Moscou. Os dois clubes seguiram sendo campeões até 1940, quando o campeonato parou devido a Grande Guerra Patriótica. O mesmo voltaria somente em 1945 e novamente com o Dínamo sendo campeão. Dali em diante, CSKA (a época CDKA) e Torpedo Moscou ganharam espaço no futebol do país e somente em 1961 um clube não-russófono levantaria a taça. O Dínamo de Kiev ganhou o campeonato pela primeira vez e com o fim da URSS em 1991 terminou sendo o maior campeão do país contabilizando treze títulos, seguido de Spartak Moscou e Dínamo.
Dínamo de Moscou, primeiro campeão soviético em 1936, com o fim da URSS só faturaria um nacional, a Copa da Rússia de 1994/95.
 Além de russos e ucranianos, times da Geórgia, Armênia e Bielorússia também conquistaram a competição. O Dínamo Tbilisi, da RSS da Geórgia foi campeão em 1964 e 1978. O Dínamo Minsk de Belarus foi campeão em 1982 e o Arat Erevan da Armênia levantou a taça em 1973. Os estados-nações também tinham seus campeonatos próprios. O próprio Dínamo Minsk foi campeão bielorusso oito vezes e duas vezes da Copa.
O Dínamo Misnk na era soviética. Na arquibancada, ao fundo, uma imagem de Lenin.

As seleções


 O acaso foi diferente com a Seleção Soviética, que era alcunhada de Exército Vermelho. Os soviéticos passaram a ter um selecionado no início da década de 1950, que disputou seu primeiro campeonato em 1952, sendo ele as Olimpíadas Helsinque. A seleção teve como base os jogadores do CSKA (na época CDSA). Nesses Jogos Olímpicos os campeões nas quatro linhas foram os húngaros, que contavam com Ferenc Puskas. A URSS passou na fase preliminar pela Bulgária mas parou em uma nação co-irmã, que tinha uma seleção independente, a Iugoslávia. Após um empate em 5 a 5, outro jogo foi feito e os iugoslavos venceram por 2 a 1, os mesmos chegariam até a fase final. Polônia e Romênia também foram para as olimpíadas de forma independente e ambas decaíram diante da Hungria. Vsevolod Bobrov, foi o destaque soviético nos jogos, marcando oito gols, o atleta também participava de Hóquei no Gelo.
Bellini, do Brasil, e Netto, da URSS: confronto de um time só.
Bellini e Netto apertam as mãos antes de um Brasil 2 x 0 URSS. (Créditos: Imortais do Futebol)

 A Copa do Mundo de 1958, foi a primeira disputada pela União Soviética e também a primeira vencida pela Seleção Brasileira. Na ocasião os soviéticos enfrentaram os dois finalistas. O Brasil na fase de grupos, pro qual perdeu por 2 a 0 e a Suécia nas oitavas, onde cedeu pelo mesmo placar. Uma curiosidade é que a Seleção Soviética foi a primeira a enfrentar Pelé e Garrincha juntos. Em seguida, o "Exército Vermelho" conquistou a Eurocopa de 1960. Antes, em 1956 o selecionado que continha Lev Yashin e Igor Netto conquistara medalha de ouro nas Olimpíadas de Melbourne, e o bicampeonato veio somente em 1988.
euro-1960
Soviéticos campeões da primeira Eurocopa, realizada na França em 1960. (Créditos: Imortais do Futebol)

 A Tchecoslováquia que havia sido vice-campeã europeia em 1960 foi grande protagonista na Copa do Mundo de 1962. Junto com a Iugoslávia, as duas nações socialistas chegaram as semi-finais. Os tchecos iniciaram no grupo do Brasil e os iugoslavos no grupo da URSS. As quatro equipes avançaram de fase, e na semi as duas nações socialistas se enfrentaram, com a Tchecoslováquia vencendo por 3 a 1. Na final, o placar se repetiria, mas de forma reversa, e o campeão seria o Brasil novamente.
Seleção Tcheca, vice-campeã em 1962. (Creditos: Anotando Fútbol)
 Foi em 1966 que a própria Seleção Soviética conseguiu um maior destaque. Em solo inglês liderou o Grupo 4 e junto da Coreia do Norte avançou de fase, tendo vencido os italianos que continha diversos futebolistas renomados. A URSS deixou a Hungria pra trás e decaiu para a Alemanha Ocidental. Na disputa do terceiro lugar enfrentou a Seleção Portuguesa de Eusébio e perdeu pelo placar de 2 a 1, na copa em que os anfitriões seriam os campeões. Há ainda a polêmica de que a União Soviética chegou a ser prejudicada pela arbitragem devido a discordância política com outros países membros da FIFA.
Eusébio e os atletas soviéticos.

  Já em 1982, a Polônia por pouco não foi finalista na Copa do Mundo. Soviéticos não passaram da segunda fase, enquanto tchecos e iugoslavos ficaram na primeira. Em contrapartida os poloneses avançaram até as semifinais, onde foram derrotados pela Itália (futura campeã) por 2 a 0. Na decisão do terceiro lugar, disputada um dia antes da final, a Polônia venceu a França por 3 a 2. Esta foi a famosa Copa que estava prometida a Seleção Brasileira, comandada por Telê Santana.
Na primeira imagem, poloneses x italianos, na segunda, Zico no jogo contra a União Soviética.
Futebol na Rússia, no prelúdio servia para demonstrar virilidade masculina

 No livro, Spartak Moscou - Uma história do time do povo no Estado dos Trabalhadores, conta-se que o futebol na Rússia era um espaço onde se podia expressar a masculinidade e deixá-la fluir. Era algo próprio para camponeses trazidos as cidades grandes pelo êxodo rural. Ou seja, ali se destacava um conceito de "Macho Alpha". O autor Robert Edelman atesta que "o futebol forneceu aos diversos tipos de moscovitas, ricos e pobres, um jeito novo e diferente de mostrarem em um espaço público sua masculinidade, sua força física e sua virilidade". 

 Assim como nos países latinos, o futebol era algo aristocrático na Rússia czarista, e por isso aqueles de classes inferiores, abnegados pelos campos da burguesia, limitavam-se a jogar em espaços públicos, a exemplo das ruas, o que ficou conhecido como 'futebol marginal'. Com a transição para a URSS, o futebol continuou sendo um espaço dominado por homens. E esse futebol marginalizado viria a fundamentar o Spartak, com uma torcida masculinizada, viril e rebelde, formada em sua maioria por trabalhadores, mostrando-se o oposto da masculinização tida no Dínamo Moscou, que tendia a algo mais militarizado. 
Escrete do Krasnaia Presnia, time que antecedeu o Spartak Moscou.

 O Spartak teve como seu primeiro nome Krasnaia Presnia. O primeiro nome, significa vermelho, em alusão a Revolução de 1917, e o segundo é o nome do bairro de origem, onde se tinha muitos trabalhadores braçais, fábricas e onde se via as mazelas sociais. Os irmãos Starotsin, viviam nesse bairro de Presnia, que ficava a margem da sociedade imperial. Por sua vez eles possuíam uma condição social inerente aos vizinhos. Como os mesmos frequentavam escolas mais caras, foram introduzidos ao futebol por esse meio. 

Legado
Rússia x Suécia em setembro de 2015, no estádio do Spartak. A faixa diz: "Orgulhosos de nossa história". (Créditos: O Canto das Torcidas)
 Hoje em dia, as torcidas eslavas se dividem. Algumas reconhecem os feitos soviéticos e outras se mostram totalmente contra, porém, por um aspecto nacionalista como acontece na Polônia e também na própria Rússia com torcidas do CSKA e Spartak demonstrando o anti-antifascismo e do Zenit, onde joga o ex-Vitória, Hulk, cenas de racismo. 

 Em contrapartida há outros grupos de torcedores nesses clubes que manifestam-se como antifascistas e anti-racistas. Times mais subalternos, mas que tiveram importante história no futebol da era soviética como o FC Serp i Molot Moscow hasteiam bandeiras e faixas socialistas nos estádios, diferente de Ultras do CSKA que possuem faixas com o símbolo white-power. 

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